quinta-feira, 20 de março de 2008

Minha Morte

Raymond Carver


Se eu tiver sorte, acaberei cheio de fios,
numa cama de hospital, uma sonda
na narina. Mas tentem não se assustar, amigos!
Digo-lhes, desde já está tudo bem.
É pouco o que peço pra o meu fim.
Alguém, espero, terá telefonado a todos:
“Venham depressa, ele está se indo!”
Virão. E haverá tempo
para que eu me despeça dos seres queridos.
Se eu tiver sorte, eles se aproximarão
e poderei vê-los uma última vez
e levar ess a lembrança comigo.
Claro, é possivel que, me olhando, tenham vontade de fugir
uicando. Mas como me amam,
tomarão minha mã, dizendo”coragem”,
ou “vai ficar tudo bem”.
Certo. Está tudo bem.
Tudo ótimo. Se vocês soubessem como me fizeram feliz.
Espero continuar tendo sorte, espero que possa fazer algum sinal.
Abrir e fechar meus olhos, como a dizer
“Sim, eu ouço vocês, sim, eu entendo vocês”.
Talves possa sinalizar algo como
“Eu também amo vocês, sejam felizes”
É o que espero. Mas não quero pedir tanto.
Pporque, se eu – como mereço – não tiver sorte, bem, então
simplesmente tombarei, assim no mais, sem nenhuma cahnce
de despedida ou de apertar a mão de alguém
ou de dizer quanto gostei de vocês, quanto
apreciei, todos esses anos, estar com você. De qualquer modo,
tentem não lamentar-me demasiado. Quero que saibam
que fui feliz, enquanto aqui estive.
E lembrem que eu disse isso tempos atrás – abreil, 1984.
Alegrem-se se eu puder morrer junto
a meus amigos e minha familia. Se isto acontecer, acreditem,
eu saltei na frente. Eu não perdi esta.


(Tradução de Moacyr Scliar)

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